segunda-feira, 13 de junho de 2011

Houve um homem chamado Dorival

Houve um homem, chamado Dorival.


De início, era como um deus para mim. Dele vinha, ao que parecia, minha provisão e proteção. Sua palavra era lei e sua disciplina, inquestionável. Temia-lhe a ira. Alegrava-me com sua presença. Esforçava-me para agradá-lo.Confiava em seu amor e descansava em seu colo como em nenhum outro lugar. Clamei inúmeras vezes por seu socorro. Chamei seu nome - na verdade, seu título - quando me vi em perigo.Passado algum tempo, seu status ganhou contornos um pouco menos exagerados, mas não menos extraordinários. Virou herói. A fé deu lugar à fantasia. Ninguém me parecia mais forte, mais inteligente, mais capaz ou mais admirável. Briguei em sua defesa: "o meu é muito melhor que o seu". E não podia admitir que me contrariassem ou sugerissem o contrário. Achava que ele podia voar.Veio, porém, a adolescência e o herói virou vilão. O mundo sob seus cuidados e controle parecia chato demais, correto demais, apertado demais. Nada era permitido. Seus poderes tornaram-se irritantes: chegava rápido demais, ouvia longe demais, via por trás das paredes e emitia palavras e sons que poderiam explodir a cabeça de qualquer um. Queria descobrir sua fraqueza e vivia imaginando um mundo livre de suas imposições. Não consegui nem uma coisa, nem outra. E ainda bem que esta fase passou depressa.Fiquei jovem. O vilão, como num passe de mágica - e nem sei dizer quando, exatamente -, transformou-se em exemplo. Sabia o que eu não sabia e eu sabia disso. Sabia dirigir, trabalhar, amar sua mulher e lidar com os dramas da vida. Não era mais divino ou super-poderoso, mas era forte de um jeito constrangedor e seguro de um jeito vulnerável. Errava, mas jamais passou qualquer impressão de má-intenção ou soberba. Apenas a certeza de que era normal.Casei. Afastei-me. Ressurgiu a figura do herói. Não porque surgiram-lhe novos poderes, mas porque acumulavam em meu coração suas histórias de heroísmo. Salvou-me, tantas vezes. Ajudou-me, tantas vezes. Surpreendeu-me, tantas vezes. E até que tinha algumas capacidades que não são comuns aos meros mortais...


Não voltou a ser um deus para mim, mas cheguei à conclusão inequívoca de que estava a serviço do próprio Deus, em meu favor. Na verdade, nunca desejou outra coisa que não ver-me entregue e confiante na soberania que sempre marcou sua vida. Hoje compreendo que sua palavra era uma tentativa de ajudar-me a viver de acordo com aquela Palavra, a eterna, que nunca poderá falhar. Sua oração sempre teve em vista minha salvação, mais que meu sucesso ou bem-estar. Sou grato a Deus e a ele.


Em todo tempo, compreendesse eu ou não, aceitasse ou não, gostasse ou não - e não queria, nunca, que tivesse sido de outro modo -, foi meu PAI. Um maravilhoso pai. Um amado pai. Um fiel e exemplar pai. Ensinou-me a viver e amar a Deus. Não deixou-me órfão. Sinto, mais do que nunca, que tenho pai, mesmo diante de sua partida tão precoce. E sei que tenho: é o mesmo que agora o recebe em sua glória e presença definitiva. Também sei que, um dia, nos reencontraremos.


Por hora, ficam as lembranças tão especiais e a certeza de que tudo valeu a pena. Ficam a família, a fé, o amor e o desejo de viver dignamente. Mas também fica a ausência, a tristeza da perda e a sensação de que a vida nunca mais será a mesma. Fica o adeus, até que todas as promessas (que tantas vezes ele fez questão de repetir) se cumpram plenamente. Fica a homenagem. Fica a mensagem: 


Adeus, Dorival. Dor e saudades de você!


Fonte: Marcelo Gomes

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